Cultura e Simbologia Rastafari !!!

O movimento rastafari ou rastafarianismo nasceu da conjunção de fatores sociais, políticos, econômicos e culturais. Foram acontecimentos que marcaram uma época de grandes mudanças na consciência de povos do mundo inteiro. Na primeira metade do século XX, os anos de 1900, a humanidade parecia estar vivendo, coletivamente, um processo de revisão e prova de verdadeira evolução. Grandes acertos eram comemorados, como os avanços tecnológicos; por outro lado, erros monumentais eram cometidos; um paradoxo porque, naquele mesmo momento, vozes do mundo inteiro faziam ouvir seus protestos reclamando reparação para as grandes feridas abertas pelas arbitrariedades de incontáveis gerações do passado.

Neste contexto, os clamores mais veementes partiam do continente Africano, completamente exausto e caótico em conseqüência dos abusos cometidos pela colonização européia. Na África, os movimentos negros emergiam buscando o resgate da auto-estima étnica e cultural e o rastafarianismo apareceu como um ponto de encontro ideológico que oferecia fortes símbolos representativos de valores de identidade.

A origem filosófico-religiosa da doutrina rastafari é dupla do ponto de vista histórico e geográfico. Por volta dos anos 30, em dois lugares distantes entre si, um mesmo espírito de renovação se erguia. Mobilizações político-culturais que agitavam a Etiópia tiveram uma notável repercussão na Jamaica. Naquela época, a Etiópia era uma monarquia teocrática governada pela mítica dinastia dos descendentes do bíblico rei Salomão, fruto de sua união com a não menos lendária rainha de Sabá (ou Sheba). Esta, governava uma vasta região ao sul daquele país. Estes herdeiros mantiveram a linhagem e o trono ao longo de milênios e em 2 de novembro de 1930, aos 38 anos, Ras Tafari Makonnen foi coroado como o novo governante do império Etíope.

O MESSIAS NEGRO
A figura e a história de Haile Selassie estão na base da teologia cristã-rastafari. Na Etiópia, o herdeiro do trono de Davi os tenta, entre outros títulos, os de Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. Por seu enorme carisma e forte liderança em favor das nações e etnias oprimidas, em todo o mundo, Selassie começou a ser considerado como "Cristo", em sua significação original, Chrestos, ou seja, ungido, o Filho de Deus, reencarnação do próprio Jesus de Nazaré.

Seu nascimento foi associado a antigas profecias. De fato, Marcus Garvey não foi o primeiro a profetizar a vinda de um Salvador que haveria de redimir os injustiçados. Teólogos analisavam os fatos e encontravam conexões entre Ras Makonnen e previsões contidasna Bíblia católico-cristã, nos livros sagrados dos judeus e nos Evangelhos Apócrifos (textos contemporâneos aos quatro evangelhos oficiais mas desconsiderados pela Igreja Católica Apostólica a Romana). Para os rastafaris, o anunciado retorno de Jesus, ou do Messias, ocorreu em 23 de julho de 1892, quando Ras Tafari veio ao mundo, filho de nobres descendentes da Casa de Davi em terras africanas. Seu pai, Ras Makonnen Wolde Michael era um governador de região, um cargo hereditário. O jovem Tafari foi educado como cristão ortodoxo (da Igreja Ortodoxa do Oriente). Estudou na Etiópia e na França. Era versado nas escrituras sagradas da mais diversas correntes do cristianismo e do judaismo. Conhecia obras raras o Kebra Nagast (A Glória dos Reis), uma Bíblia judaica africana cujo original remonta mil anos atrás, e também o Livro de Enoch, os Livros de Moisés, o Livro do Éden, os 31 volumes da Bíblia hebraica tradicional e os 21 livros canônicos (oficiais) do Novo Testamento. Como futuro governante de um território, foi iniciado nas artes de guerra e na equitação de batalha. "Lig" - Conde Tafari era também Iniciado em mistérios da natureza e diziam que era capaz de conversar com leões e leopardos.

A DISNASTIA DE SALOMÃO NA ÁFRICA

No Kebra Nagast, conta-se que o Rei Davi, o primeiro govenante judeu do chamado Período dos Reis da história dos judeus, desposou Betsabé, uma descendente de judeus negros. O casal gerou o histórico Salomão, que suscedeu o pai e gerou um filho com a Rainha Sheba (a Rainha de Sabá), imperatriz de terras ao sul da Etiopia. Como legado ao herdeiro, Salomão confiou à Rainha um anel de diamante ornamentado com afigura do Leão de Judah.O garoto foi chamado Menelik, Bayna-Lehkem ou, o "Filho do Sábio", e consta que teria visitado as terras de Israel onde conheceu seu pai e com ele foi iniciado no judaísmo. Foi assim que o Reino de Davi se estabeleceu na Etiópia há três mil anos e a Dinastia, bem como o anel de diamante, atravessaram os séculos até se extinguir com a morte de haile Selassie. Além dos títulos de rei dos Reis (Negus Nagast) e Senhor dos Senhores, o trono etíope agregava outros tantos atributos que reforçavam a autoridade religiosa do imperador; ele era o Leão de Judah, o Eleito de Deus, o Messias Negro. 

SIMBOLOGIA

A significação dos elementos estétio-artísticos da cultura rastafari está relacionada com suas origens doutrinárias onde se misturam símbolos antigos e contemporâneos. Quando se fala em "rastafari" certas imagens mentais são evocadas imediatamente, como "reggae music". Dreadlook ou a alegria, a vivacidade das cores predominantes em roupas e objetos. Cada um destes elementos tem sua razão de ser, sua explicação.


CORES
O verde, o vermelho e o amarelo são as cores da bandeira nacional da Etiópia, onde aparecem com o mesmo significado vigente entre os rastas e representam:
VERDE: terra e esperança
AMARELO: a Igreja e a paz
VERMELHO: poder e fé.

São, portanto, cores representativas de valores tanto materiais (físicos) quanto metafísicos (ou espirituais). O físico, no verde, se relaciona à Terra-Mãe, natureza, fauna, flora tão exuberantes, na África, assim como no Brasil, fonte de vida e prosperidade, terra provedora de abrigo e alimento. O aspecto metafísico do verde é a esperança porque esta cor está ligada, nas tradições esotéricas mais antigas, aos fenômenos de renovação. No Taro, oráculo de cartas de origem hindu-egípcia, a carta XX, tem o verde como cor destacada. O arcano (a carta) chamado O Julgamento, mostra três figuras que se erguem de um túmulo diante de um anjo apocalíptico, uma cena de ressurreição.
Nos tons do amarelo e do vermelho se concentram outros significados subjetivos. A Paz, condição necessária a uma existência saudável; a Igreja, como força social de união entre os povos; o poder, como capacidade de realização de metas, de transformar sonhos em realidades e, finalmente, a Fé, sem a qual estas capacidades não podem ser alcançadas. É pela fé que se mantém a persistência rumo a um objetivo não obstante os numerosos obstáculos que se interponham entre uma pessoa e suas aspirações mais elevadas.


DREADLOOK
Como já foi mencionado acima, o dreadlook se refere ao estilo ou visual dos cabelos. Muitas "tribos urbanas" adotam estilos característicos de cabelo (ou não-cabelo!) como signos de identidade. Basta mencionas os rockers e hipies clássicos, que usam cabelos longos; os punks radicais, chamados skinheads(carecas) ou os punks moderados e os góticos, com cabelos arrepiados e tingidos. Os rstafaris não cortam os cabelos nem se preocupam em "domar" suas cabeleiras à custa de pentes e escovas furiosas, chapinhas (pequenas plataformas de ferro aquecido para alisar cabelos) ou produtos químicos. Os cabelos rasta crescem livremente e são cuidados com procedimentos normais que atendem simplesmente à higiene e a arrumação para fins práticos, com o prender ou usar uma touca em circunstâncias de trabalho. Há quem duvide mas os rastafaris lavam seus cabelos; apenas não usam gel, nem mousse ou laquê...
As tranças ou mechas são cultivadas desta forma por razões filosofico-religiosas e identitárias. Os rastafaris argumentam que o crescimento contínuo dos cabelos é condição natural da bioquímica do organismo humano, idéia que se combina com a evidência de queesta bioquímica é uma determinação de Deus, e a vontade de Deus é soberana. (A pelagem dos cavalos, das zebras ou das axilias e região pubiana, por exemplo, não crescem ad infinitum!). Por outro lado, o dreadlook remete à imagem da juba de um leão, animal que, enquanto símbolo, expressa várias idéias: rei (dos animais), força, coragem, dignidade. Historicamente, cada soberano da Dinastia do Rei Salomão, do Trono de Davi, recebe, com o cetro e a coroa, o título de "Leão de Judah", figura enigmática identificada como "aquele que resgata o Reino de Deus". Esotericamente, o leão refere-se ao retorno de Cristo (o Messias, o Salvador), que veio ao mundo há mais de dois mil anos atrás como "cordeiro de Deus". Dizem os profetas que a Segunda vinda do Messias ocorre nos seguintes termos: "o cordeiro voltará como leão". Para os rastafaris, este retorno já ocorreu e o Leão de Judá foi Haile Selassie, como foi explicado nos tópicos anteriores.


MÚSICA
A música rastafari, ao contrário da clássica concepção estética kantiana (de Emmanuel Kant), não se enquadra em questões de 'juizo de gosto" nem é uma atividade gratuita, objeto daquela contemplação conceitualmente vazia de "arte pela arte". A rastamusic é o que os teóricos Modernos e Contemporâneos consideram, com o horror de uma normalista, uma arte "utilitária", pelo simples fato deser música feita com claros objetivos político-ideológicos e metafísicos, que transcendem à comunicação artística de mero entretenimento.
Para além da difusão de ideais socio-políticos, as composições, em sua harmonia, ritmo e timbres dos instrumentos, buscam sintonia com o pulsar de um coração tranquilo e, por isso, estas composições são chamadas de "música do coração" ou heart beat. O uso da percussão com objetivos místicos e psicológicos tem raízes milenares não somente na África mas também na Ásia, em culturas antigas de países como Índia, China e Japão, sem falar dos povos pré-colombianos e dos povos indígenas brasileiros. Os sons dos tambores e de outros objetos percussivos, diferentes entre si e combinados na "batida" do reggae, é um meio de conexão com a divindade, de acordo com o conhecimento ocultista, que considera o som como a primeira manifestação de Deus em sua criação de todas as coisas. Está escrito no Gênesis: "No princípio, era o Verbo"; e o Verbo é palavra; e palavra, expressão objetiva do pensamento, concretismo sutil do mais abstrato, é som. A física atual já pode confirmar este ensinamento bíblico, uma vez que foi detectada uma vibração sonora presente em todo o cosmos conhecido até agora. A análise científica revelou que tal vibração, chamada "ruído de fundo" ou "reverberação residual", trata-se de um campo energético cuja idade se confunde com a origem do Universo, ou seja, tem a idade do Big Bang.
Outro aspecto da importância da música na cultura rasta é de natureza psicológica, aspecto este igualmente aceito pela ciência. Experiências laboratoriais já provaram exaustivamente que a música interfere no estado de espírito, ou humor, não apenas dos homens, mas também dos animais e até das plantas. Há músicas excitantes, outras depressivas e outras ainda, como o reggae (bem como a newage music e os cantos gregorianos, o canto-chão) que são tranquilizantes, capazes proporcionar um estado mental de serenidade, apaziguando emoções violentas e, por conseguinte, melhorando o desempenho da inteligência como um todo. Este poder tranquilizador da rastamusic é reforçado pelas letras das canções, que contêm mensagens de paz, amor e dignidade. É um tipo de sonoridade capaz de despertar a divindade que, em sua onipresença, reside dentro de cada um, por vezes oculta, mas sempre ali, esperando apenas um pequeno chamado para se manifestar. Cantando os versos de um reggae, proferindo repetidas vezes afirmações positivas, acredita-se que é possível, efetivamente, transformar a realidade. Esta é uma concepção que, mais uma vez, encontra respaldo nas tradições esotéricas que professam o ensinamento: "Falar é Criar".