Haile Selassie - A Voz da África

As primeiras décadas do governo de Haile Selassie foram marcadas por intensas atividades administrativas e diplomáticas. Já em 1931, ele promulgou a primeira constituição etíope e instituiu o Parlamento. Construiu escolas e hospitais, promoveu reformas no sistema tributário, na administração e nos serviços públicos. Criou as Linhas Aéreas, o Banco da Etiópia e uma nova moeda, o dólar etíope. Em 1935 sobrevieram o terror e a guerra com a invasão do território etíope pelas tropas de Mussoline. Milhares de civis foram massacrados. A esssa altura, Haile Selassie tinha inimigos em casa: a Igreja negava apoio em represália aos tributos cobrados sobre suas terras; as classes mais abastadas estavam descontentes com a perda de privilégios. O impasse bélico-político culminou com o Imperador exilado na Inglaterra, em 1936. Nos anos seguintes, Selassie prosseguiu em sua luta diplomática, especialmente na Tribuna da Liga das Nações e, posteriormente, na ONU, onde proferiu numerosos discursos. No primeiro destes pronunciamentos, no exílio, falando sobre o neocolonialismo italiano que atacava seu país, Selassie sentenciou: "Vocês jogaram um fósforo aceso na Etiópia, mas ele vai queimar toda a Europa." (Selassie Apud Imssembly for Rastafari National Education, 2001).
Na Etiópia, proliferavam guerrilhas e revoltas contra o domínio italiano. Com o advento da Segunda Guerra Mundial, a voz da África finalmente foi ouvida: em 1940, os ingleses alinhavam-se ao lado do povo etíope. Em abril de 1941, com a ajuda do exército bretão, o "Leão de Judah" derrotou os facistas e retornou a seu país. Os trabalhos recomeçaram: os escravos foram libertados e uma reforma agrária entrou em curso. Uma nova constituição foi promulgada, em 1955. Em 1963, a Etiópia era uma das nações líderes na formação da Organização da Unidade Africana (OUA) que reuniu trinta países do continente e que até hoje tem sua sede em Adis Abeba (capital etíope).
Em 1974, o reinado de Selassie chegou ao fim. Ele contava 82 anos e o muito que tinha feito pelo desenvolvimento de sua terra não foi suficiente. Grandes mazelas ainda fustigavam a população, com 95% de analfabetos e altos índices de desemprego. A classe política estava contaminada pela corrupção e a fome, associada ao fantasma da seca, matava dezenas de milhares de pessoas. Os jovens se mobilizavam exigindo liberdade de imprensa e a instituição de um regime democrático, com a criação de partidos. Um golpe militar foi o desfecho desta trama de tensões. Selassie foi preso e sua família exilada, na Europa e nos Estados Unidos. O "Messias Negro" morreu em circunstâncias misteriosas, sob a custódia dos militares, em 25 de agosto de 1975. Segundo versão não-oficial, ele teria sido estrangulado. Seus ossos foram guardados em uma caixa que trazia os dizeres "Não Mexa". As autoridades não sabiam o que fazer com aquilo. Em 5 de novembro de 2000, os restos mortais de Haile Selassie foram enterrados na Igraja da Santíssima Trindade. O anel de Salomão, que lhe fora confiado na época da coroação, migrou com a família do "Ras Negus" e no final dos anos de 1970, foi oferecido como presente a Bob Marley, em Londres, por Asja Woosen, um dos filhos de Selassie. Depois da morte do artista, ele também, Marley, considerado como um rei - Rei da Reggae Music, o anel desapareceu; um mistério ainda para ser desvendado.


PALAVRAS DO REI:
Durante, 44 anos, tempo em que foi Imperador da Etiópia, Haile Selassie destacou-se entre todos os líderes mundiais que militaram em favor de um mundo melhor. Entre os chefes de estado africanos, foi o principal articulador da realização do ideal de uma África livre e desenvolvida. Empreendeu viagens diplomáticas a numerosos países, chamando atenção para as questões da Etiópia e do continente como um todo. Seu apelo, "Olhem para a África", frutifica até hoje, inspirando movimentos negros, mantendo a África como um vetor (uma força) fundamental na equalização das forças socio-políticas atuantes no planeta. Na sessão abaixo, estão relacionadas algumas das falas de "Ras Selassie", que jamais temeu tocar no nome de Deus nas tribunas internacionais. Nos exemplos aqui relacionados a impõe-se, notavelmente, a atualidade ds idéias do Leão de Judah.
Além do Reino de Deus, não há governo humano que tenha mais mérito que outro. Mas, nesta Terra, quando um governo poderoso acredita que está certo eliminar outra nação, contra a qual nenhuma ofensa possa ser imputada, então chegou a hora do prejudicado trazer os males que vem sofrendo perante a Liga das Nações. Deus e a História estarão observando, como testemunhas, o julgamento que será dado aqui. (Primeiro pronunciamento de Haile Selassie na Liga das Nações, 1936)
Muito espaço tem sido dado aos ricos em suas ações contra a vida humana neste planeta, como a corrida armamentista, mas pouco divulgados são os efeitos colaterais e as conseqüências indiretas dos gastos militares astronômicos. O desarmamento deve ser empreendido para que assim possa se extinguir a ameaça do holocausto mundial. Com uma drástica redução dos orçamentos militares serão liberados os recursos necessários para erguer todos os seres humanos à condição de homens realmente livres. (Conferência de Belgrado, 1961).

Devemos olhar, primeiro, para Deus Todo Poderoso, que levantou o homem acima dos animais e lhe deu inteligência e razão. Nele devemos colocar nossa fé, pois Ele não nos deixará e não permitirá a destruição da humanidade, que Ele criou à sua imagem. Devemos olhar para nós mesmos, para o fundo das nossas almas. Devemos nos transformar em algo que nunca fomos antes. Nossa educação, experiência e ambiente nos prepararam mal. Devemos nos tornar maiores do que temos sido, mais corajosos, mais altos de espírito, com uma visão de maior alcance. Devemos nos tornar como uma nova raça, ultrapassando pequenos preconceitos, prestando nossa lealdade não às nações mas, sobretudo, aos nossos irmãos e à comunidade humana. (ONU, outubro - 1963).
Os africanos, ocupam uma posição diferente; na verdade, única entre as nações deste século. Tendo sofrido opressão, tirania e jugo por tanto tempo, quem teria mais direito de reclamar melhores oportunidades e o direito de viver e crescer como homens livres? Não teríamos nós o direito de levantar o clamor pela justiça para todos? Reivindicamos o fim do colonialismo, porque a dominação de um povo por outro não é correta. Reivindicamos o fim dos testes nucleares e da corrida armamentista porque estas atividades representam terríveis ameaças para a humanidade e um desperdício material e cultural. Isto tudo é um grande erro. (Pronunciamento aos Líderes Africanos. Adis Abeba - 1963).
O que os países economicamente atrasados estão buscando (...) é a aplicação do dinheiro hoje desperdiçado com armamentos na solução de problemas socio-econômicos. Os grandes desafios que enfrentamos atualmente são dois: a preservação da paz e a melhoria das condições de vida daquela metade do mundo que é pobre. Estas duas questões são, é claro, interdependentes. Sem a paz, é inútil falar da melhoria das condições de vida da humanidade e sem tais melhorias, garantir a paz torna-se muito mais difícil. Estes dois problemas devem ser atacados simultaneamente (...) Uma das tragédias de nossos dias é que a metade da humanidade se vê às voltas com a fome, nunca satisfeita, a pobreza, a ignorância, a doença. Se as grandes quantias gastas pelos governos com a invenção e fabricação de armas fossem redirecionadas para atender às necessidades vitais dos homens de todo planeta, estes homens poderiam resgatar sua dignidade, sua felicidade e sua confiança, sua fé no futuro. (Cúpula da Organização da Unidade Africana - OUA. Cairo - Egito, 1964).